Para aqueles que não gostam ou até desprezam o futebol e que, só por isso (e não por serem mais inteligentes do que os outros), se apressam a criticar do alto da sua soberba quem vibra com as vitórias ou derrotas do seu clube, este meu desabafo depois do FCP-SLB de ontem vai talvez parecer inoportuno. Por que raio falar outra vez nesse assunto?, perguntar-se-ão.
Mas vou falar, sim. E por uma razão que tem muito menos a ver com futebol e muito mais com o País e com os Portugueses.
Como sempre me assumi benfiquista, não escondo que estou triste com o resultado, sobretudo, por ter hipotecado um campeonato que eu acho que o meu clube merecia ganhar, por tudo o que fez ao longo da época.
Mas também não venho falar-vos da minha tristeza pela derrota, mas sim de outra tristeza bem mais séria, profunda e irremediável, nascida do que vi, li, ouvi e senti após o apito final. Assisti mais uma vez, entre incrédula e desanimada, à livre expressão da alma de uma boa parcela deste povo, em toda a sua nudez. E mais uma vez, choquei-me.
Como antes de ser benfiquista sou jornalista, e me considero uma pessoa educada, democrata e tolerante (cumprimentei os vencedores no meu mural e jamais fui provocar adversários no mural deles), tenho-me esforçado desde há muito por passar a mensagem do fair-play, do respeito, da contenção, da crítica construtiva, do festejo sem picardia ou da aceitação da derrota sem rancor.
Dentro do mesmo espírito, que já não é de agora, tenho-me esforçado também por combater o divisionismo provinciano e perigoso das guerras Norte-Sul, desdramatizar o lado negativo da rivalidade Porto-Lisboa, os protagonismos regionais construídos em cima do estímulo ao ódio, à trapaça, à provocação rasteira.
Mas por vezes sinto que de nada serve essa luta.
Porque quando ontem olhava a televisão, via imagens de turbas a ameaçar e a insultar os vencidos, mesmo antes de serem vencidos. Se ligava o rádio, ouvia relatos de agressões de vândalos a jornalistas em serviço à saída do estádio. E quando abria o Facebook, deparava-me com toda a espécie de posts e piadas de baixo nível, provocações gratuitas, grosserias borjeças, enfim, a crua demonstração do nível cultural e cívico de um povo que não só não sabe respeitar os seus adversários, como mostra a sua verdadeira natureza na celebração das vitórias.
Senti-me realmente uma derrotada e uma moura. Porque uma pessoa que seja democrata, tolerante e educada só pode sentir-se derrotada perante este triste espectáculo. E senti-me uma moura, porque esta imagem não é realmente a que teimo em guardar do meu País. Serei realmente moura, ou ainda poderei sentir-me portuguesa na minha terra?
E antes que me digam que estou a dramatizar, e que isso é só uma minoria de gente ignorante, marginal, sem educação, tenho a dizer-vos que é falso. Porque até no Facebook, entre muitos amigos que todos os dias interagem comigo e que tenho por cultos ou minimamente esclarecidos, ou outros que mal conheço mas de quem costumo ler posts sérios e comentários sensatos, eu li e vi esta noite coisas absolutamente inacreditáveis, de um mau gosto, de uma alarvidade e de uma grosseria sem limites. O verniz estalou.
E isto levou-me outra vez a pensar que temos, realmente, um problema muito grave neste País: a falta de seriedade, de civismo e de valores éticos, mas também de auto-valorização por parte de grande parte do nosso povo. Não só por escassez de instrução conjuntural, mas sobretudo por uma estranha deformação estrutural.
Somos muito pequeninos, muito mesquinhos, muito rasteirinhos, muito rancorosos e invejosos, muito vaidosos e arrogantes mesmo quando não valemos um caracol, somos muito fortes com os fracos e os vencidos e muito cobardolas com os fortes e os vencedores.
Só enfrentamos e pisamos os que já estão no chão, e encolhemo-nos perante os que estão por cima. Garganta é o que não nos falta, mas corremos a enfiar-nos no primeiro buraco à vista, mal cheiramos o perigo de perto. E isto é transversal a classes sócio-económicas, níveis académicos ou origens de berço.
Somos igualzinhos aos governos que tanto criticamos e dizemos detestar. Talvez porque é de entre nós que sai quem nos vai governando. E é por isso que nos agacharemos sempre perante tudo o que os governantes nos quiserem impor (porque nos sentimos como os vencidos, de cócoras), baixaremos a cabeça pela frente e só protestaremos quando eles estiverem de costas (não vá o diabo tecê-las), e nunca sairemos da cepa torta enquanto povo, sempre na expectativa de um qualquer D. Sebastião que nos venha salvar, para depois corrermos atrás dele a dar vivas e a bater palmas, com cravos na lapela.
Festa é connosco. E aproveitar o esforço alheio é a nossa especialidade.
A verdadeira estrutura dos homens conhece-se pela forma como eles festejam as suas vitórias e pelo respeito com que tratam os vencidos. Esta noite, a propósito de um mero jogo de futebol, percebi novamente, em toda a sua dimensão, a estrutura genética deste povo. Os 900 anos de História de Portugal e a cepa de que eram feitas algumas gerações que nos antecederam justificavam e mereciam melhor descendência.
Pegando no que dizem os portistas, hoje sinto-me moura. Uma moura triste e desconsolada.
Assim se exterminam excedentes!
Afinal, é muito fácil para um qualquer governo resolver os problemas de um qualquer país, sobretudo quando esse governo tem as costas quentes além-fronteiras e o povo desse país tem as costas largas dentro, fruto do seu pacifismo ancestral (o designado “come e cala!”).
A técnica, curiosamente já ensaiada com muito sucesso e total impunidade em meados do século passado, na Alemanha, consiste simplesmente em eliminar alguns excedentes, para em seguida usurpar os seus bens ou regalias a favor do Estado.
No século passado, como as coisas estavam menos evoluídas, ainda não existiam casos Goldman Sachs nem o mundo financeiro alcançara o sucesso e influência de hoje, os métodos eram por isso mais rudimentares.
O extermínio era descarado e não havia preocupações éticas ou tentativas de ocultar os factos. Criavam-se uns quantos matadouros humanos onde, por efeito da fome e da doença, do gás letal e da fornalha, se fazia desaparecer tudo (todos) o que estava a mais na perspectiva de quem mandava.
Hoje em dia, as coisas são mais sofisticadas, fruto dos avanços na economia e finança e da maior preocupação dos homens em disfarçarem os seus propósitos sob a capa do progresso, do bem-estar, da lógica e do bom-senso. Hoje é tudo para bem de todos e de forma muito mais limpa. Sendo que os resultados a prazo são os mesmos.
Em vez de matadouros sinalizados e de efeitos imediatos, os novos métodos de extermínio chamam-se medidas de contenção. Resultam da mesma forma em fome e doença, mas deixam às vítimas o livre arbítrio da escolha – ou compras um pão ou os comprimidos para o coração.
E no fim, exauridos de tudo, quando morrem, não deixam propriamente bens, mas constituem na morte uma imensa fonte de riqueza – menos um a receber uma pensão, a ocupar cama no hospital, a gastar comparticipações na farmácia, a incomodar com os seus lamentos e olhares silenciosos quem tem de pagar tudo isto sem receber nada em troca, porque se trata de gente inútil, improdutiva, irrecuperável, excedentária.
A técnica actual é infalível e muitíssimo eficaz. Em pouco tempo, consegue cortar na despesa sem efeitos colaterais, até porque visa precisamente gente que já não tem como defender-se ou reagir. Não há como fazer greve, como passar noites ao relento em vigílias, em muitos casos já nem há forças para percorrer as ruas em manifs. São vítimas indefesas e que nem na morte incomodam.
Começa por uns cortes na pensão, porque ela é exagerada e imerecida. Continua com uns aumentos de taxas e reduções nas comparticipações da saúde. Prossegue depois com a actualização das rendas de casa, porque são muito baixas. A seguir, vem o corte de pessoal e de meios nos hospitais e centros de saúde, para que além de caro, o acesso ao SNS seja também cada vez mais ineficaz. E cada vez menores os meios de cura.
E quando, por fim, chegar o dia em que a saúde falhou severamente, não haverá serviço de reanimação, nem ventilador disponível. Convoca-se a família para o tradicional “lamentamos muito, fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, mas não deu”. E ninguém admitirá que o que estava realmente ao alcance daquele excedentário já era praticamente nada, devido à contenção da despesa.
E tudo isto se decide e executa com um sorriso cínico e algumas palavras-chave muito pomposas, que falam de modernidade, de desenvolvimento harmonioso, até de direitos, justiça e bem-estar (para os que sobrevivem, bem entendido!).
E não é que há quem oiça e aplauda, e até colabore no extermínio, certamente esquecido de que, num dia talvez não muito distante, irá ocupar também uma cama de hospital, precisar de medicação para o coração ou de comprar pão sem ter salário, sem ter direito a fazer greve ou pernas para acompanhar uma manif!
Assim, é realmente muito fácil a qualquer um governar qualquer país!
A patente continua a ser alemã!
Nem tudo está perdido!
As minhas filhas foram meninas com muita sorte. E não digo isto por elas nunca terem sofrido privações na vida, embora isso seja muito importante. Quando falo na sorte que as minhas filhas tiveram, refiro-me a outras coisas que vão muito para além de terem boa comida no prato, uma casa condigna onde habitarem, estudos até onde desejaram ir ou um médico sempre que necessário.
As minhas filhas foram meninas com muita sorte porque tiveram um pai que lhes mostrou que o talento e a arte são uma benção e também podem ser um modo de vida, e que a coluna vertebral vale muito mais do que a fama e, imagine-se!, também pode conduzir à fama. A fama boa, claro, a alcançada pelo mérito.
As minhas filhas foram umas meninas com muita sorte porque tiveram uma mãe idealista que sempre privilegiou o conhecimento em detrimento da imagem, que também nunca trocou princípios por dinheiro, que preferiu inundar a casa de livros a encher o guarda-roupa, que lhes transmitiu sempre a ideia de que só o mérito conduz à verdadeira realização pessoal, que a dignidade não tem preço e que a felicidade só vale a pena quando a consciência não nos pesa.
Um dia, fui surpreendida por elas com a seguinte frase: “Mãe, tu não nos preparaste para a vida. A tua intenção era boa, mas o mundo não funciona assim como nós pensávamos”.
Não reuni coragem suficiente para lhes dizer, naquele momento, que isso já eu sabia. Mas que não tinha resistido, mesmo assim, a prepará-las para um mundo como ele deveria ser, um mundo pelo qual eu lutava todos os dias, na minha banca de jornalista, um mundo pelo qual o pai delas também lutava todos os dias, em cima de um palco.
Não consegui confessar-lhes que as preparei deliberadamente para continuarem o nosso trabalho de luta por um mundo melhor, porque na verdade, me percebi de que, com isso, estaria a admitir que decidira condená-las a irem pelo caminho mais difícil, exactamente o contrário do que deveria ser supostamente a missão de uma mãe: facilitar a vida aos filhos.
Infelizmente, as minhas filhas tinham descoberto que nem todas as meninas tinham tido a sorte delas. Que muitas nunca puseram os pés num teatro que não fosse para ouvir a banda da moda a tocar, nunca tinham lido um jornal ou um livro que não fosse por obrigação na escola, que mediam o sucesso da vida da família apenas pela marca do carro que o pai conduzia e pela quantidade de vezes que a mãe ia ao cabeleireiro ou à massagista. E que tinham aprendido que o dinheiro é mais importante do que a honestidade, que era preciso subir na vida não importava por que preço, e que não é com cultura e honestidade que se pagam contas.
A geração de políticos profissionais que nos lidera hoje, e aquela que aguarda para a substituir, são um reflexo disto. O canudo serviu-lhes apenas para serem chamados de doutores e poderem subir mais depressa. O único palco que conhecem é o do poder. As suas únicas leituras foram as cartilhas do partido. A sua única ambição é terem um carro com motorista, serem figuras públicas e prepararem um bom futuro, ou seja, uma boa conta bancária.
E muitos que almejavam o mesmo mas não conseguiram, porque não dava para todos, vivem frustrados, revoltados e permeáveis a qualquer um que se lembre de tirar partido disso para fins menos transparentes.
Foi o resultado de não terem sido meninos e meninas com muita sorte. É esse o meu/nosso azar, o azar das minhas filhas e de muitas outras/outros como elas.
O que vale é que, pelos sinais que vou lendo todos os dias nas minhas filhas, eu sei que, apesar de tudo, elas não perderam a noção de que foram umas meninas com muita sorte. Pelo contrário, assumem-no. Continuam a ir ao teatro para ver teatro, amam e respeitam a arte, lêem e interessam-se pelo que se passa à sua volta, medem o sucesso pelo esforço e pelo mérito e, cada uma na sua área, estão ambas a lutar por um mundo como ele deveria ser. E não são as únicas.
Eu sei que isto está difícil, mas nem tudo está perdido.
O 25 de Abril é uma boa data para mudarmos o nosso destino
Todos os dias são bons para abanar consciências e mobilizar vontades. Mas por alguma razão que só o coração conhecerá, foi precisamente neste dia 25 de Abril que eu senti uma estranha urgência em abanar a minha consciência e mobilizar a minha vontade para apelar às vossas consciências e vontades: vamos parar de nos lamentar, e sonhemos, antes, qualquer coisa de concreto e definido que possa dar um novo rumo à nossa vida e ao destino do nosso País!
Vivemos tempos duros, tempos de incerteza e de desesperança. O caminho é penoso e o horizonte tão longínquo que nem está à vista. Vamos tropeçando a cada passo, no difícil equilíbrio entre o possível e o desejável, entre a realidade e a ilusão. E de tão perdidos, acabamos por nos desgastar com o acessório e deixamos escapar o primordial.
Trocamos acusações, rancores, queixas engasgadas na garganta da nossa desilusão, e nem percebemos que, de tão desunidos, nos vamos perdendo cada vez mais. Consumidos por slogans e frases feitas, embriagados por preconceitos e ódios sem sentido, vamos esgotando as forças e pulverizando as vontades até mais nada restar que preste, para além do desatino e da frustração.
Independentemente dos números e dos cálculos do deve e haver, que tanto monopolizam as atenções de economistas e agiotas, existe um vício de raiz que tem minado as bases da sociedade em que vivemos: a nossa democracia está doente, porque é na realidade anti-democrática. A nossa democracia representativa não funciona porque, simplesmente, não nos representa.
Delegámos a nossa intervenção cívica em mãos alheias, porque nos disseram que assim devia ser. E nem questionámos os resultados porque somos, na verdade, demasiado preguiçosos para assumir as rédeas do nosso próprio destino. É bem mais fácil delegar responsabilidades em terceiros, e depois aliviar de tempos a tempos a consciência com protestos e reclamações. Demagógicos e de certo modo cínicos.
Esta demissão generalizada atinge o seu ponto alto nos dias em que somos chamados a votar. Isso só acontece de quatro em quatro anos. Mas nem assim nos damos a tanto trabalho. Para quê, se tudo vai continuar na mesma, dizem muitos. Eles são todos iguais, não há verdadeiras alternativas, acrescentam outros. E assim se vão apaziguando remorsos ou se desculpabilizam indiferenças difíceis de explicar.
Queixamo-nos de não sermos respeitados? De sermos até enganados? De os partidos viverem em circuito fechado e virados para dentro, de só se importarem com a conquista do poder e com a satisfação de ambições pessoais? Lamentamos-nos da impunidade e desresponsabilização dos políticos, do amiguismo e trocas de favores em que se movem, da corrupção e abusos que praticam? Mas queixamo-nos porquê, afinal, se somos os primeiros a desinteressar-nos do controlo democrático que nos cabe, se não exigimos nem pedimos contas?
Os partidos só se transformaram em agências de emprego para amigos, em fontes de favorecimento e tráfico de influências, em verdadeiras máquinas profissionalizadas e autistas, porque nós deixámos que assim fosse, ao demitirmo-nos do nosso papel de livre escolha e de controlo democrático. E se hoje os partidos estão minados por grupos de interesses, por lobbies poderosos que os manipulam e usam a seu bel-prazer e em proveito próprio, à nossa desatenção e ausência se deve.
Seria bom que, após 39 anos de democracia assim desperdiçada, os Portugueses se decidissem de uma vez por todas a intervir, a participar, a exercer os seus direitos e deveres cívicos, a votar nas próximas legislativas, sem desculpas nem omissões.
E seria também muito bom que surgisse entretanto da sociedade civil uma “pedrada no charco”, sob a forma de movimento ou outra coisa qualquer, capaz de romper com o status quo e promover uma verdadeira revolução por dentro do sistema, de forma a tornar a nossa democracia verdadeiramente democrática e verdadeiramente representativa.
Uma força que, sem ser necessário mudar a Lei Eleitoral, que os partidos tanto teimam em deixar intocável, tivesse a ousadia de concorrer a eleições com novas regras assumidas internamente, inovando e contrariando o sistema, permitindo aos eleitores escolherem eles próprios os seus candidatos preferidos. Uma força que congregasse nas suas listas cidadãos independentes sem lhes definir à partida uma hierarquia de lugares nas listas, e que lhes garantisse depois autonomia completa, que não lhes impusesse qualquer disciplina de voto.
Será talvez difícil, mas não impossível.
E quem sabe se, assim, os portugueses não voltariam a acreditar na democracia, no poder do seu voto e na eficácia das suas escolhas eleitorais?
A democracia está neste momento doente. E não conseguirá curar-se enquanto não for devolvido ao povo o direito a premiar os honestos e competentes, e a punir os que não cumprem ou traem a confiança de quem os elegeu.
Achei que o 25 de Abril era uma boa data para deixar aqui esta mensagem.
Uma questão de (des)confiança
Creio que entre os vários sentimentos que qualquer criança guarda, das memórias da sua infância com os pais, há um fundamental, que funciona quase como um corrimão invisível, a que ela se vai agarrando para não tropeçar ou cair, até chegar à idade adulta. Vou chamar-lhe confiança.
É através da confiança que a nossa meninice decorre tranquila, mesmo que o mundo lá fora pareça hostil. É pela confiança que vamos perdendo o medo do desconhecido, que nos aventuramos a novos desafios. É pela confiança que aprendemos a reconhecer nos nossos pais os grandes protectores da nossa segurança, o amparo das nossas lágrimas, o estímulo das pequenas vitórias que vamos alcançando.
Confiança é aquele sentimento que nos faz acreditar sem hesitações, que nos dá vontade de partilhar, de oferecer tudo de nós sem receio. É o cimento da nossa estrutura enquanto indivíduos, o garante dos nossos amanhãs, o sossego dos nossos desassossegos.
Os nossos pais são o nosso farol, os nossos guias, e nas suas mãos nos entregamos, nos depositamos sem medo, precisamente porque confiamos. Porque sabemos que não nos vão faltar, nem trair, nem iludir, nem magoar. Podemos contar com eles. Sabemos que tudo farão por nós, para nosso bem. Porque existe confiança.
Mais tarde na vida, é ainda com base na confiança que construímos amizades e amores. E é também pela quebra de confiança que se destroem amizades e amores. Mais do que qualquer outro sentimento, a confiança ou falta dela aproxima-nos ou distancia-nos, dá-nos paz ou mal-estar. E quando a confiança é traída, tudo o resto se vai desmoronando aos poucos. Sem remédio ou hipótese de retrocesso.
Poder-se-ia mesmo dizer que a confiança é um dos pilares fundamentais da vida em sociedade. As pessoas organizam-se e conjugam esforços numa base de confiança. E ninguém constrói nada com quem não merece a sua confiança.
Pelo contrário, evitamos, fugimos até de quem nos inspira desconfiança. Não acreditamos na veracidade da sua palavra, na bondade dos seus gestos, na sinceridade dos seus objectivos. Não vamos a lado nenhum com alguém em quem não confiamos. Muito menos colocamos a nossa vida e futuro, ou daqueles que amamos, nas mãos de quem desconfiamos.
Neste momento crucial da nossa vida colectiva, em que era fundamental batalharmos todos unidos, sermos solidários e próximos, partilharmos esforços e objectivos, quebrou-se irremediavelmente a única coisa que jamais poderia ter-se quebrado – a confiança!
Tal como um pai ou uma mãe que não estão lá nos momentos cruciais da vida, tal como um amigo ou um amante que nos trai ou desilude, os nossos governantes desprezaram a confiança que neles teríamos de depositar, para que se ultrapassassem as tempestades e chegássemos a bom porto. Juntos.
Defraudaram-nos expectativas, esconderam-nos verdades incómodas mas necessárias, tentaram fazer de nós tolos quando foi conveniente, chegaram a ofender-nos a dignidade e o orgulho, ignoraram as nossas queixas, desdenharam das nossas dores, e como se tudo isto não bastasse, provam-nos sistematicamente que não podemos confiar, nem no que nos havia sido prometido ao longo de uma vida, nem no que nos foi dado e tirado em seguida, enfim, em todos os contratos assinados entre Estado e cidadàos, e que estão a ser espezinhados e desrespeitados, dia após dia.
O fundamento desta enorme clivagem que separa hoje os cidadãos dos seus governantes reside na quebra de confiança absoluta e total. E irremediável. Já ninguém aceita voluntariamente sacrifícios, porque desconfia dos resultados. Já ninguém ouve um governante falar sem pôr em dúvida as suas reais intenções. Já ninguém acredita nas previsões, porque elas são sistematicamente fracassadas.
Numa palavra: quebrou-se a confiança, e com ela foi-se também a boa-vontade.
As muitas vozes que se têm vindo a erguer ultimamente, oriundas dos mais variados quadrantes, exigindo uma grande remodelação governamental, já perceberam certamente isto. Sabem que só com novos rostos será possível, ainda, recuperar a confiança perdida dos portugueses.
Ao persistirem teimosamente nesta mini-remodelação, e ao manterem, contra tudo e todos, os protagonistas da quebra de confiança, os nossos actuais governantes só estão, afinal, a confirmar-nos que não podemos mesmo confiar neles.
Dinis, meu amor incondicional
Será o amor verdadeiro algo que se esgota ou cansa, com o tempo ou a quantidade? Será ele divisível ou multiplicável, adicionável ou subtraível? Haverá espaço suficiente para os seus múltiplos rostos, ou terá ele apenas um rosto, que cresce ou encolhe, e se vai acomodando ao nosso próprio espaço interior?
Só comecei a formular estas perguntas, curiosamente, quando as respostas vieram pela primeira vez ao meu encontro, sob a forma de pequeninos seres que gesticulavam, se enroscavam e logo se distendiam, emitiam sons estranhos, abriam timidamente um olho após outro, e procuravam o meu regaço protector sem precisarem de bússola ou guia.
Percebi então que não é o amor que se esgota ou cansa, somos nós que por vezes nos cansamos dele, nos esgotamos nele. Também não é divisível nem multiplicável, porque quando realmente amamos, fazemo-lo de uma forma tão única e inesgotável, e ao mesmo tempo, tão grandiosa e ilimitada, que não há maneira de dividir ou multiplicar um só átomo desse estado de graça. E como poderíamos adicionar ou subtrair algo ao que é em si mesmo tão total, tão completamente transcendente?
É por isso que chamamos incondicional ao amor que dedicamos aos filhos. Porque ele nunca se esgota nem cansa, nunca encolhe ou é divisível pelo facto de haver mais um a quem amarmos. Cada filho é um amor que tem o seu espaço próprio, único, insubstituível e irrepetível. E que cresce, resiste e perdura contra todas as lógicas e sobressaltos.
Podemos amar muitas vezes, e desamar outras tantas. Homens (ou mulheres) passam pelas nossas vidas, instalam-se por mais ou menos tempo, preenchem os nossos momentos e sentimentos, porventura dão-nos até a ilusão do eterno “para sempre”, mas nunca coabitam no nosso espaço de amor, limitam-se a ir e vir, substituindo-se uns aos outros. E mesmo quando achamos que amamos mais do que um em simultâneo, é ilusão. Talvez fruto das saudades do amor que se foi, ou da fragilidade do amor que ainda agora chegou.
Mas o amor por um filho é outra coisa. O amor por um filho é incondicional. Ele é, além de infinito, também imutável. E ao contrário do amor por um homem (ou mulher), o amor por um filho vai crescendo sempre, nunca se cansa ou esgota. A forma como amamos cada filho também não depende de serem mais ou menos. Cada um deles é como se fosse filho único no nosso coração.
Que dizer, então, do amor por um neto? Que é como amar duas vezes mais? Que é um amor maior do que aquele que sentimos por um filho? Mas como é isso possível, se o amor que temos por um filho já é infinito, ilimitado, único e inimitável?
Pela segunda vez na vida, estas perguntas surgiram-me curiosamente no momento em que me vi perante mais um pequeno ser que gesticulava, se enroscava e logo se distendia, emitia sons estranhos, abria timidamente um olho após outro, e procurava o regaço protector… da minha filha Bárbara, sem precisar de bússola ou guia.
Estava desvendado o mistério. E com ele o segredo desse tal amor por um filho dos nossos filhos. Amar um neto é amar duplamente os nossos filhos. É reviver nesse pequenino novo ser tudo o que vivemos e amámos nos nossos filhos, é buscar nele todos os sinais que nos maravilharam ao longo da vida dos nossos filhos, é podermos refazer gestos e omissões que gostaríamos de ter evitado no passado, é ter a oportunidade de repetir tudo aquilo que achamos não ter oferecido o suficiente aos nossos filhos.
Um neto é como que uma segunda oportunidade que a vida nos dá de voltarmos a ser pais, e podermos emendar erros, aliviar consciências pesadas, sermos mais pacientes e amorosos talvez, oferecermos um pouco mais do nosso tempo, preocuparmo-nos um pouco menos com a disciplina e a exigência, e um pouco mais com a ternura e a condescendência.
Sempre tive instintivamente a certeza de que seria assim, mesmo antes de tomar pela primeira vez, nos braços, o meu neto Dinis, meu amor único e incondicional. E sei que o meu amor por ele jamais se cansará ou esgotará, jamais será subtraível ou divisível.
Como há-de acontecer com os outros netos que certamente hão-de vir.
O piano da minha tia-avó Irene
Em casa dos meus avós paternos, num prédio de traça antiga da zona da Estefânia, com tectos trabalhados, havia portas encimadas por um rectângulo de vidraça fixa, cuja real função nunca percebi bem. Mas era por ali que me surgia, por vezes, uma estranha figura de chapéu escuro puxado para os olhos, com uma espécie de vara na mão, que ficava por segundos a olhar-me em silêncio, e me fazia engolir mais depressa a sopa. “Olha que o papão vem aí, se não comeres!”, diziam-me.
Eu era na verdade difícil, à hora das refeições. Demorava que tempos de boca cheia, a transferir a comida de uma bochecha para a outra, e não havia maneira de engolir. As técnicas que usavam para me convencer eram variadas, conforme quem segurava a colher.
A minha mãe contava-me histórias e ia suplicando, com gentileza. A minha avó paterna, mais disciplinadora, preferia ameaçar-me com o papão, que até hoje não sei quem era. Acho que os homens da casa se revezavam nesse papel. Já a minha tia-avó Irene, que era pianista e me adorava, conseguia que eu rapasse o prato com a promessa de me deixar sentar ao piano a tocar. E aproveitava para me ir ensinando as oitavas. Como eu adorava aquele piano!
Quando hoje olho para trás, recordo com ternura esse passado. Mas talvez devido ao meu forte temperamento, e à minha manifesta aversão a pressões, tenho de reconhecer que, de todas, a técnica do piano era a mais eficaz comigo. Porque me fazia comer tudo sem pensar no sacrifício, de olhos e emoções concentrados, acima de tudo, no piano, a recompensa.
As súplicas da minha mãe entristeciam-me, faziam-me sentir uma má filha, por não conseguir fazer-lhe a vontade sem esforço. O papão com que a minha avó me ameaçava obrigava-me a ceder, pelo medo, mas deixava-me intimamente indignada. A promessa do piano era o estímulo de que eu precisava para ultrapassar os obstáculos (a falta de apetite), por achar que valia a pena o sacrifício.
Lembrei-me disto agora, quando procurava encontrar explicação para a incompreensão hoje visível entre o discurso do sacrifício repetido pelo nosso Governo e a cedência indignada dos Portugueses.
Temos a ameaçar-nos todos os dias o papão da Troika e as desgraças que nos esperam se não obedecermos, e vamos cedendo, uns porque a isso são mesmo obrigados, outros por medo das consequências, poucos por convicção. Mas quer o medo quer a obrigação provocam em nós revolta, indignação. Porque, na realidade, não passam de sacrifícios sem verdadeira recompensa à vista.
Quanto mais eficaz e agradável seria se utilizassem connosco a técnica da minha tia-avó Irene, e nos dissessem muito simplesmente que é essencial comermos a sopa toda (aceitar os sacrifícios) se quisermos tocar piano no fim (sair da crise e recuperar a nossa vida com dignidade). Se nos pedissem desculpa por este mau bocado (em vez de nos atirarem constantemente à cara as nossas culpas), se apelassem delicadamente à nossa coragem e paciência, e não nos ameaçassem sempre com o futuro negro que temos pela frente, com o empobrecimento (imprescindível?), com as duas décadas de recessão ou estagnação que nos esperam.
Quem está disposto a comer a sopa toda sem apetite, se não tiver um teclado de piano à sua espera?